Trabalhar a brincar – A importância da musicoterapia no desenvolvimento da criança

Trabalhar a brincar – A importância da musicoterapia no desenvolvimento da criança

Autora: Andreia Leal (Musicoterapeuta)

A música é algo que nos é inato. A música não se limita às notas musicais e à pauta. A música é algo que existe em tudo o que nos rodeia, nos movimentos dos elementos da natureza, no vibrar de um eletrodoméstico, no carro a arrancar, nos sons que fazemos com o nosso corpo. A música vive em nós, mesmo que não sejamos capazes de a ouvir, somos capazes de a sentir através da vibração, ou de a ver através de movimentos.

Desde cedo, a criança começa a explorar o mundo sonoro que a rodeia, ainda na barriga da mãe inicia o seu desenvolvimento auditivo e começa a reconhecer as vozes familiares. Durante os primeiros anos, reconhece e até trauteia as músicas preferidas, demonstra entusiasmo ou reage quando uma música que lhe agrada começa a tocar. A música desperta na criança um estado de alerta e uma capacidade de atenção e permanência na atividade que poucos outros estímulos podem proporcionar.

Sabe-se que a música auxilia no reforço cognitivo, linguístico, psicomotor e sócio afetivo da criança. Tem um grande impacto no desenvolvimento da sensibilidade, criatividade, sentido rítmico, imaginação, memória, atenção, disciplina, socialização, concentração, consciência corporal e, para além disso, facilita a expressividade comunicativa.

Mas porque é que a música tem tanto impacto no desenvolvimento da criança?

A música possui um carácter lúdico, que permite que a criança se envolva mais facilmente não criando resistência à atividade. Ao fazer música (ver, ouvir, tocar) a criança está a brincar, está envolvida numa atividade que lhe proporciona diversão e bem-estar.

A música, por si só, é um estímulo?

Sim! A música é um estímulo tão inato que é capaz de despoletar uma resposta fisiológica, por exemplo, na alteração do batimento cardíaco.

Estudos sobre a influência da música no comportamento defendem que nos adaptamos ao tipo de música que estamos a ouvir ou a praticar. Lojas de roupa mantêm certos tipos de música a tocar nos seus altifalantes porque estimulam a compra. Empresas e fábricas trabalham ao som de músicas com tempos acelerados para aumentar a produtividade. Este tipo de música destaca-se por harmonias complexas, mudanças mais repentinas na dinâmica musical e tempos mais acelerados que aumentam o nosso estado de alerta, promovem a predisposição para atividades motoras e uma maior ativação cerebral, potenciando a capacidade de permanência na tarefa e de concentração. Os consultórios costumam estar preenchidos por um ambiente sonoro mais tranquilo, com pouca variação e um tempo mais lento, para que as pessoas se mantenham tranquilas. Este tipo de música permite-nos compartimentar e estruturar melhor a atividade, reduzir o estado de alerta e, consequentemente, aumentar a capacidade contemplativa, promovendo o relaxamento e a regulação motora e emocional.

Como é que a música pode potenciar a aprendizagem?

Fácil! Sabem aquela música que ouvimos quando eramos pequenos e já não ouvimos há 20 anos, no entanto sabemos a letra na perfeição? Essa música é a prova do benefício da música na aprendizagem, pois permite-nos perceber que a informação associada a uma música, a uma linha melódica ou rítmica, é integrada e gravada no nosso cérebro de forma mais eficaz. Para além disso, ouvir estas músicas que não conseguimos esquecer, desperta em nós sentimentos de nostalgia que nos fazem ativar a nossa memória emocional, trazendo-nos recordações da época em que a ouvíamos.

Mas não só a capacidade de memorização é trabalhada quando fazemos música. Por exemplo, ao explorar a capacidade rítmica estamos a estimular o desenvolvimento do sistema nervoso, a organização do pensamento e a coordenação. Ao acompanhar e criar coreografias estamos a desenvolver a competência motora, sendo que, qualquer movimento associado a um ritmo se traduz num conjunto complexo de atividades coordenadas (ouvir, interpretar, compreender, expressar, movimentar). Ao fazer parte de atividades estruturadas partilhadas com o outro, promovemos o tempo de permanência na tarefa, a atenção conjunta e a interação com o outro.

Se a música, por si só, pode ajudar no desenvolvimento da criança, para quê recorrer à musicoterapia?

A musicoterapia utiliza a música e os seus elementos (timbre, intensidade, altura, etc.) como veículo para atingir objetivos terapêuticos, não musicais. A música, quando manipulada e aplicada de forma profissional, por um musicoterapeuta, seguindo estratégias delineadas e planificadas tendo em conta cada criança, os seus interesses e potencialidades, permite que se trabalhem questões específicas de atenção e concentração, do comportamento, da comunicação, fala e linguagem, motoras, sócio afetivas e cognitivas. Na musicoterapia não se trabalha a música com intuito de atingir um fim musical, mas sim para desenvolver e potencializar competências específicas. Na sessão, a criança permanece num ambiente lúdico musical, preparado e suportado pelo musicoterapeuta, permitindo que a criança trabalhe a brincar. Por esta razão, a musicoterapia pode ser uma boa aliada em qualquer etapa do desenvolvimento da criança.

 

Andreia Leal Musicoterapeuta